A temporada oficial deste ano acabou. Estamos vivendo o período que precede a temporada 2010. Período de preparação. Muita expectativa para 2010. Verdão disputará duas competições oficiais no primeiro semestre: Campeonato Catarinense e Copa do Brasil.
Embora a base do elenco de jogadores restou mantida, houve perdas de atletas importantes. A reposição de peças está em curso. Vários atletas recém contratados já estão jogando os amistosos, outros estão chegando, e outros ainda serão contratados, e vão chegar.
Essas mudanças no elenco e na equipe titular, exigem –nesta pré-temporada 2010 – todo um novo trabalho físico, técnico e tático. No caso, muito trabalho tem a Comissão Técnica do Verdão.
Na verdade, neste momento de amistosos a Comissão Técnica da Chapecoense está buscando testar, apurar e conhecer o que cada jogador tem ou pode render dentro de suas características, considerando o aspecto tático individual, tática de grupo, e o sistema tático coletivo, em face das estratégias traçadas para cada jogo, para a próxima temporada.
Além disso, os amistosos têm a função de entrosar a equipe e dar ritmo de jogo aos atletas.
Tática X Estratégia
Como as equipes de futebol são compostas por pelo menos três setores – defesa, meio-campo e ataque – é preciso aplicar, treinar, um SISTEMA, responsável pela coordenação das partes entre si, transformando o que poderia ser um emaranhado de 11 (onze) jogadores em uma estrutura organizada.
Existem três tipos de táticas, e todas elas devem ser levadas em consideração pelo treinador de futebol.
Tática Individual: é a função desempenhada pelo jogador. Dentro da proposta coletiva, o técnico precisa estabelecer de maneira clara e eficiente o papel de cada um. Envolve as orientações sobre a movimentação do jogador, a postura ofensiva e a postura defensiva.
Tática de grupo: é o planejamento dirigido a um setor específico. Envolve as atribuições de cobertura, apoio à marcação, linhas de passe e triangulações, ocupação e abertura de espaços. Exemplo: tática de grupo para defesa e ataque no lado direito do campo, envolvendo o lateral-direito, o primeiro volante e o meia-articulador. Conforme suas táticas individuais, todos precisam saber como auxiliar uns aos outros na marcação, e como se movimentar organizadamente nas investidas de ataque.
Tática coletiva: é o planejamento adotado para todo o time, aquele “dos números” (3-5-2 ou 4-4-2), responsável por interligar e coordenar as táticas de grupo. Mas o sucesso da tática coletiva depende da maneira como o treinador define as funções de cada jogador (táticas individuais) e a movimentação ordenada de cada setor (táticas de grupo). Apenas definir o sistema tático, sem o cuidado de organizar as partes e as individualidades, não é suficiente.
Qual a diferença entre tática e estratégia de jogo?
A estratégia não pode ser confundida com o sistema tático. A parte tática é apenas um elemento dentro da estratégia de jogo.
Estratégia pressupõe um conjunto de medidas (planos) abrangentes que durante o jogo buscam gerar vantagem competitiva.É uma somatória de esforços empreendidos no intento de influenciar, impactar, transformar, envolver, desarticular, dominar, subjugar, iludir, a equipe adversária, para obter o objeto do interesse (a vitória, os três pontos).
A tática é o elemento visível da estratégia.
Um dos primeiros usos do conceito de ‘estratégia’ ocorreu no século IV a.C. pelo estrategista chinês Sun Tzu que escreveu um tratado, sempre atual, “A Arte da Guerra” afirmava que: “Todos os homens podem ver as táticas pelas quais eu conquisto, mas o que ninguém consegue ver é a estratégia a partir da qual grandes vitórias são obtidas”.
À estratégia compete orientar a evolução da tática em campo, a fim de que esta possa desempenhar o papel conveniente para a consecução dos objetivos por aquela fixados.
Pode então dizer-se que, tradicionalmente, se distingue estratégia de tática, colocando a primeira do lado da concepção, planificação e previsão e a segunda do lado da execução, da luta direta com o oponente (adversário).
Numa comparação mais simples, a tática seria ‘como’ se deve realizar determinada função (em oposição à estratégia, mais próxima de ‘o que’ se deve realizar). Estratégia está mais relacionada com os fins da medida, da mudança, e a decisão tática reporta-se aos meios a utilizar.
A estratégia é a maneira como vai se comportar a equipe em campo. Independentemente do sistema tático, o time pode adotar uma postura mais ofensiva ou mais defensiva. Com o mesmo sistema tático, um time pode modificar a estratégia dentro de um jogo – invertendo jogadores de posição, por exemplo, ou alterando o sistema de marcação.
Mais ligada às táticas individual e de grupo, a estratégia leva em consideração a movimentação dos jogadores na marcação (cobertura, antecipação) e na articulação (antecipação, criação de espaços, formação de linhas de passe), e a característica dos atletas. Times que se enfrentam com o mesmo esquema tático podem ter estratégias diferentes.
Por isso, é importante que os jogadores tenham capacidade para compreender as atribuições de cada função dentro da tática coletiva, assimilando mais de uma tática individual. Isso oferece a oportunidade para que o treinador altere a estratégia com a bola rolando, sem a necessidade de fazer substituições, apenas modificando a função dos jogadores.
Zonas de Marcação
A definição do sistema de marcação é fundamental dentro da estratégia de cada equipe. Mas também é preciso levar em consideração o preparo físico e a movimentação do adversário na definição do sistema de marcação. De nada adiantaria, por exemplo, definir uma marcação-pressão se a equipe não tem condições físicas de agüentar essa exigência por muito tempo.
Zona: delimitada a zona de atuação de cada jogador (tática individual), ele vai dar combate nos adversários que por ali transitarem. Exige muita visão periférica para antecipar as jogadas e fazer a abordagem correta no momento em que for exigido.
Pressão: adiantam-se todos os setores (tática de grupo) e a marcação é feita no campo do adversário. Os atacantes entram em combate direto com os zagueiros para induzir o adversário à ligação direta.
Meia-pressão: a defesa e o meio-campo adiantam-se, mas a pressão é exercida apenas pelos atacantes, na saída de bola dos adversários.
Individual: um jogador marca apenas um adversário, acompanhando o atleta em qualquer parte do campo. Utilizada para anular algum jogador diferenciado de criação ou finalização.
Mista: é diferenciada por setor (tática de grupo). Pode ser adotada pressão no ataque, a zona no meio e a individual na defesa, por exemplo.
Treinador do Verdão
Agora, dá para entender, ou pelo menos ter uma pequena idéia, do árduo trabalho que tem o treinador de futebol, para implantar e fazer a equipe assimilar as táticas individuais (para cada jogador), as táticas de grupo (específicas para a defesa, meio campo, e ataque), e o sistema tático coletivo (ligação e integração entre os diversos setores da equipe: defesa – meio de campo–ataque). Para que a estratégia de jogo traçada surta efeito, a movimentação dos atletas, dentro de campo, deve ter plena integração entre os setores(sincronia e harmonia), considerando o esquema tático adotado. Por isso, só com muito treino técnico-tático, à exaustão, a equipe ganha estrutura, conjunto, volume de jogo (posse de bola), confiança, evolução tática (sincronia, harmonia), verticalidade no ataque, necessários para vencer os jogos.
Por todas as equipes onde passou, e não é diferente aqui no Verdão, o Ovelha é um grande estrategista. Já tivemos certeza disso o ano todo! Afinal, 2009 o Ovelha fez um belo trabalho, e esperamos que 2010 seja, ainda, melhor! Assim como o Ovelha, o Verdão, também, precisa ganhar campeonatos, conquistar títulos! E que seja já em 2010!
Constatações quanto aos amistosos já realizados
Nesses jogos amistosos realizados contra as equipes do São Luiz, Avenida e Santa Cruz, eu observei, salvo melhor juízo, que o Ovelha teve problemas, sofreu muito, para fazer o Verdão jogar, seja no sistema tático 3-5-2, quanto no sistema tático 4-4-2, em face dos desfalques e em face da carência de opções – falta de jogadores qualificados natos, para a ala direita, para a zaga, para o meio de campo (meia armador) e para o ataque (atacante de referência na área). Houve muita improvisação.
Nesses amistosos no Rio Grande, quando a equipe jogou no sistema tático 3-5-2, o Ovelha teve que improvisar o Cadu Gaúcho de zagueiro, bem como o Sílvio Bido. Esses atletas são volantes, não são zagueiros!
Além disso, improvisou na ala direita, pois, no plantel, não há ainda um ala direita qualificado (nato).
No ataque ficou evidente que o Verdão não tem um centroavante que seja referência na área (que jogue enfiado, trombador, oportunista, finalizador, goleador, “matador”), capaz de segurar a defesa adversária, e para fazer o pivô, para os meias que chegam de trás, para finalizar em condições de fazer gol. Tanto Tuto, quanto Waldson, jogam fora da área, puxando contra-ataques.
No esquema 4-4-2, por sua vez, a dificuldade do Verdão é ainda maior. É necessário um meia-armador e um meia-atacante, ambos qualificados.
Não obstante, esses jogos amistosos do Verdão foram, sim, importantes, muito valiosos, para a Comissão Técnica conhecer o grupo, dar entrosamento à equipe no esquema tático definido e adotado, e para realçar as deficiências e as carências da equipe (a necessidade de contratação tornou-se mais evidente, mais óbvia).
Na verdade, o primeiro dever de casa da Comissão Técnica é conhecer, com precisão, as características e o potencial de cada atleta, para – nas horas certas – poder contar com a peça certa, no lugar certo.
Para isso, por conseguinte, servem os amistosos, na pré-temporada.
A propósito, quanto à importância da Comissão Técnica conhecer a equipe (em todos os sentidos), aplica-se perfeitamente a seguinte lição do citado estrategista chinês, Sun Tzu, que escreveu:
“Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo lutará cem batalhas sem perigo de derrota; para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou para a derrota serão iguais; aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio, será derrotado em todas as batalhas”.
A questão dos sistemas táticos vou tratar, oportunamente, em outra ocasião.
Por fim, como restou demonstrado, a responsabilidade pela formulação da estratégia de jogo e pela definição do esquema tático (e treinamento da equipe à exaustão para que sejam assimiladas as estratégias de jogo, as táticas individuais, as táticas de grupo e a tática coletiva e as zonas de marcação) é exclusiva do treinador. Então ficam as perguntas: qual a importância do treinador para a equipe, para o time? Treinador ganha jogo? Treinador perde jogo?
Um abraço a todos.
Nelson Kichel
Torcedor da Chapecoense






